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Shaolin Soccer (2001)

Aproveitamos que “Shaolin Soccer” estreia finalmente em Portugal (infelizmente só em DVD e com o subtítulo “O Ás da Bola”, cada vez melhor!!!) para dizer toda a estima que temos por este filme, que é sem dúvida um caso típico de filme de culto.

Antes de mais, temos que dar aqui na cabeça (não adianta nada mas faz-me sentir melhor) da Miramax e da Lusomundo. Miramax porque adquiriu os direitos de exploração internacional e fez literalmente um trabalho de m.... como principalmente cortar o filme a torto e a direito, reduzindo a montagem original de quase duas horas para pouco mais de hora e meia, inadmissível. Lusomundo porque cauciona as práticas da Miramax e não acreditou minimamente no potencial do filme, acabando por distribui-lo directamente em DVD, unicamente em versão cortada americana e claro dobrado em inglês, mais uma vez inadmissível.
Resta, para quem quiser, comprar em qualquer site on-line (ver os nossos links aqui) a edição de Hong-Kong (Zona 0) com legendas em inglês, recheada de suplementos e sobretudo com a verdadeira versão do filme mais um formidável Director´s Cut, aconselho vivamente.   
 
Mas bom, deixemos por agora de lado essas considerações para falar do que nos interessa, este “Shaolin Soccer”, filme verdadeiramente único.
O realizador-argumentista-actor Stephen Chow é muito pouco conhecido no ocidente mas é uma verdadeira estrela em Hong-Kong, equivalente a Jackie Chan ou Jet Li. Para dar uma ideia desta personagem, imaginem Bruce Lee (grande ídolo de Chow) que passaria o tempo a fazer piadas do tipo Monty Python! Eu sei, é difícil de imaginar mas acreditem que o resultado é verdadeiramente hilariante.
 

 
Neste filme, Chow interpreta Sing, um monge de shaolin que procura desesperadamente uma maneira de divulgar a arte do Kung-Fu ao mundo inteiro. Por acaso, Sing vai encontrar Golden Leg Fung, antiga lenda do futebol, agora velho coxo e desempregado. Juntos vão formar uma equipa de futebol com os antigos companheiros de Sing, todos adeptos de shaolin claro. Ao entrar num prestigiado torneio, Golden Leg, treinador da equipa, reencontra o seu velho inimigo, prepara-se então uma autêntica batalha sem tréguas no campo de futebol.
 
Com uma história em aparência muito simples, Stephen Chow consegue duas coisas que têm faltado à maioria das comédias populares dos últimos tempos.
A primeira foi fazer uma comédia verdadeiramente muito bem realizada que não se pareça com uma sucessão de sketches postos uns atrás dos outros sem coesão. A não ser Alex De La Iglesia, o realizador espanhol, não me lembro de nenhum outro realizador que realize comédias desta maneira ou seja, com estilo.
O realizador quis fazer um filme tipo desenho animado e por isso multiplica os ângulos oblíquos transformando as suas personagens principais em ícones saídas directamente de um comic book ou de um manga. O recurso aos efeitos especiais revela-se aqui decisivo e são de uma grande qualidade. É incrível como esses efeitos especiais estão perfeitamente integrados na história e fazem parte inerente das situações cómicas. Lembram-se do desenho animado japonês “Tsubasa” com aqueles putos a jogar futebol que ficavam horas no ar e faziam remates de outro mundo? Agora imaginem isso mas com pessoas verdadeiras! Temos direito aqui a uma série de cenas antológicas com as mais improváveis acrobacias e tudo em plano largo magnificamente filmado. Desde do próprio Chow e a sua perna de ferro que lhe permite marcar do meio campo sem que ninguém tenha tempo de se mexer, passando pelo obeso que voa, até ao guarda redes, sósia de Bruce Lee, capaz de defender qualquer remate, é um verdadeiro cartoon live que temos à nossa frente.
 

 
A segunda foi conseguir criar as situações mais descabidas que são as mais engraçadas que vimos há muito tempo num ecrã de cinema e ao mesmo tempo transmitir uma mensagem e uma verdadeira emoção, subjacentes às piadas.
“Shaolin Soccer” não é só uma simples comédia, é também uma crítica disfarçada à nossa sociedade de consumo, onde o dinheiro compra tudo e todos, onde o dinheiro é mais importante do qualquer outra coisa.
À maneira de um Charlie Chaplin que interpretava quase sempre uma personagem de aparência ingénua mas que nunca deixava de transmitir a sua mensagem subversiva através dos seus filmes, Stephen Chow procede aqui da mesma forma e se, à primeira vista, parece uma mensagem maniqueísta, trata-se na realidade de qualquer coisa de muito mais subtil. Se repararmos bem, o aspecto social está na fonte do argumento e a história desenvolve uma estrutura baseada na oposição “pobre-rico”. Os membros da equipa de Chow no filme são todos uma cambada de marginais, perdidos no nosso mundo moderno e que já não acreditam em nada. É precisamente a personagem de Chow, com a sua ingenuidade e o seu optimismo, que vai fazer acreditar aos seus companheiros que tudo é possível, até ganhar contra a Evil Team, representação aqui dos poderosos que dirigem a nossa sociedade e que via o seu poder económico nos aprisionam e não nos deixam avançar.
Nesse aspecto, a cena do primeiro jogo de treino é fundamental. É preciso a derrota e a humilhação total para que a Shaolin Team renasça das suas cinzas e comece a acreditar que mesmo com nada, consegue-se fazer tudo e chegar onde quisermos.
A tradução directa no ecrã desta mensagem fundamentalmente humanista e anticapitalista passa através do famoso velho par de ténis. Mesmo quando Chow, no meio do filme, pensa já não precisar dos seus velhos ténis porque já é famoso e tem uns novos bem mais bonitos, no final é também graças a eles que vai conseguir o seu objectivo ou seja, é preciso nunca esquecer as nossas origens e aquilo que é o mais importante na vida.
 

 
“Shaolin Soccer” merecia muito mais do que o tratamento que lhe reservaram a Miramax e a Lusomundo porque se trata definitivamente de um filme de culto. Passamos o tempo todo a rir à gargalhada como já não acontecia há muito num ecrã, a ser deslumbrados por cenas mais malucas umas do que as outras (diga-se de passagem mais um excelente trabalho do coreógrafo Ching Siu-Tung, que já oficiou no “Herói” e na saga “A Chinese Ghost Story”) sem nos esquecermos da emoção proporcionada pelas personagens e pelas passagens mais profundas do que parecem.
Depois de ver este filme, aconselhava a todos a guardarem os vossos velhos ténis pois é com eles que de certeza vão alcançar os vossos sonhos.

18-01-2004