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Infernal
Affairs II (2003)
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Raras
são as sequelas que conseguem atingir ou ultrapassar a
qualidade do filme inicial e “Infernal Affairs II” faz parte
dessa restrita lista.
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O
primeiro “Infernal
Affairs” é sem dúvida um dos melhores polars dos últimos anos e um dos
melhores filmes vindos de Hong-Kong desde 1997 e a sua crise. Conhecendo o
mercantilismo e oportunismo de muitos produtores do arquipélago, foi com receio
que encarámos este segundo filme produzido muito rapidamente face ao estrondoso
sucesso comercial do primeiro. Para além disso, este segundo filme não conta
com as presenças carismáticas dos dois grandes actores Tony Leung Chiu Wai e
Andy Lau por se tratar de uma prequela onde nos é relatado a juventude das
personagens e como tudo começou e as levou à situação do primeiro filme.
Nada deixava portanto antever que Andrew Lau e Alan Mak, a dupla de realizadores
à frente do primeiro “Infernal
Affairs”, reiterariam o espectacular sucesso artístico do mesmo.
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Mas
pode-se dizer que Lau e Mak ainda conseguiram mais do que isso porque, com este
“Infernal Affairs II”, foram mais longe e deram uma nova dimensão ao que
podemos agora aparentar a uma verdadeira saga. Escolhendo mostrar o passado de
Yan, Ming, Inspector Wong e Sam, recheando os seus percursos de novas figuras
importantes, os cineastas atingiram uma invulgar densidade nas situações e nos
caracteres, transformando esta história de polícias e mafiosos num épico
grandioso e solene cheio de tragédia, sangue e furor.
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Se
o primeiro filme relembrava os melhores filmes de tríades oriundos de
Hong-Kong, “Infernal Affairs II” demonstra uma ambição à primeira vista
desmesurada indo buscar a sua principal influência a uma obra-prima do filme de
gangsters, a saga do “Padrinho”, nada menos!
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O
interesse dos realizadores já era a relação entre as personagens mas inserido
num suspense policial enquanto que aqui o motor da narração é precisamente
essas relações, nomeadamente familiares. Os cineastas utilizam todos os
ingredientes indispensáveis das grandes sagas mafiosas: as intrigas, a traição,
a manipulação, as execuções, a busca de poder, a vingança, etc. e a partir
daí constroem um autêntico drama humano multiplicando as personagens e
seguindo cada um dos seus percursos.
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De
facto, o filme não segue só as duas personagens principais Yan
e Ming, sendo que muitas coisas são esclarecidas ou
desenvolvidas em relação ao primeiro filme. Este aspecto é
aliás fundamental para perceber o tour de force que este
segundo filme representa no sentido que Lau e Mak conseguiram
fazer com que “Infernal Affairs II” se torne completamente
indissociável do primeiro filme. Para apreciar totalmente esta
prequela, convém ter visto o primeiro “Infernal
Affairs” mas uma vez visto este segundo filme, o primeiro
ganha uma nova perspectiva e torna quase indispensável revê-lo
e quando isso acontece, parece um novo filme com mais
significado, mais amplo e ainda mais forte.
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Isto
deve-se sobretudo à grande coerência do projecto, traduzida por um argumento
exemplar, que não apresenta nenhuma falha e não sacrifica nenhuma situação
ou personagem. Podíamos por exemplo apontar ao primeiro filme alguma indigência
em certos papéis secundários (ex: a psiquiatra), o que aqui foi perfeitamente
corrigido participando neste sentimento de saga mafiosa épica que atravessa
todo o filme.
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Em
consequência, o protagonismo principal não vai só para as personagens de Yan
e Ming novos e a narração dá tanta importância à fabulosa relação entre o
Inspector Wong e o gangster Sam, ainda raia miúda, e introduz duas personagens
essenciais para a saga, Hau Ngai e Mary. A dimensão familiar própria a todas
as sagas mafiosas está portanto presente através da personagem de Hau Ngai,
interpretado pelo sempre excelente Francis Ng, meio-irmão de Yan e grande patrão
das tríades após a morte do seu pai. É quando Hau toma conta do negócio que
Wong decide infiltrar Yan na sua própria família com todos os dilemas morais
que isso acarreta. Para além da prestação impecável de Francis Ng, a
personagem de Hau Ngai apresenta-se quase como um Michael Corleone, imortalizado
pelo indispensável Al Pacino, um homem inteligente com vontade de legitimar os
negócios da família mas que se mostra impedioso à primeira ocasião não
deixando ninguém pôr em causa a sua supremacia. Nesse aspecto, a cena de execução
dos Big Four é uma cena furiosamente violenta e evocativa, duma terrível eficácia
e verdadeiramente impressionante.
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A
dimensão trágica é também perfeitamente traduzida pela personagem de Mary,
interpretada pela soberba Carina Lau (habitué de Wong Kar-Wai). Mulher
de Sam, o jovem Ming não é indiferente ao seu charme e Mary apresenta-se como
uma autêntica manipuladora, movida somente pela ambição de ver o marido
chegar ao topo. Aliás, Mary está na origem dos acontecimentos que alterarão o
destino de praticamente todas as personagens, deixando antever um terrível
fim para ela.
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“Infernal
Affairs II”, mesmo se privilegia a dimensão trágica e romanesca do mundo do
crime, não se esquece da credibilidade que tanto fez o sucesso do primeiro
filme e pinta um retrato do trabalho de polícia cada vez mais negro e
desesperado. Para além de Yan e a sua vida baseada na mentira em razão das
suas origens e na traição por ter que acabar com a sua própria família para
provar que é um verdadeiro polícia, quem estigmatiza a condição de impotência
da figura policial é sem dúvida o Inspector Wong. Interpretado novamente de
maneira imperial por Anthony Wong, a personagem ganha aqui ambiguidade usando de
métodos pouco recomendáveis e finalmente similares ao que recorrem os
criminosos e também pela sua estranha amizade com um Sam ainda insignificante
no mundo do crime. O desenvolvimento dessa amizade tem uma ressonância
particular em relação ao primeiro filme e explica o ódio de estimação entre
as duas personagens no futuro. O percurso de Sam é também extremamente
importante pelo facto de mostrar como o combate da polícia aparece vão, sendo
que a cada Boss erradicado outro toma de imediato o lugar e mostrando as tríades
como um monstro invencível e inexorável. Isso tudo culmina num final que junta
todas as forças em presença e que faz a ponte com o primeiro filme da maneira
mais envolvente e poderosa possível. O ponto final de uma autêntica
obra-prima.
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Como
terão percebido, se “Infernal
Affairs” era um filme imperdível, tanto pelas suas qualidades como pelo
facto de mostrar que o cinema de Hong-Kong ainda estava vivo, “Infernal
Affairs II” é então um filme essencial, um filme de gangsters como não víamos
há muito tempo, com as suas personagens traídas por um destino onde a
morte é o primeiro protagonista. Formidavelmente realizado e esteticamente
perfeito, “Infernal Affairs II” não deixa indiferente e fascina, sem sombra
de dúvida um grande, grande filme!
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24-04-2005
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NOTA: 10/10
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