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Infernal Affairs - Infiltrados (2002)
 
Ver estrear em Portugal o filme hong-konguês “Infernal Affairs” é uma agradável surpresa. Nos últimos tempos, o sucesso de alguns filmes asiáticos tem vindo a facilitar as estreias e vimos cada vez mais esse tipo de filmes aparecer nas nossas salas de cinema, se bem que está longe de ser tudo perfeito, continuamos muito atrasados mas comparando com a situação de alguns anos atrás, a melhoria é notória.
Para além deste facto, este “Infernal Affairs” reveste outra importância. Para os aficionados do cinema de Hong-Kong, os últimos anos não têm sido muito famosos, aliás desde 1997 e o retrocesso da ilha para o governo chinês. Todos os que fizeram explodir o cinema de Hong-Kong nos anos 80 e 90 foram-se embora ou não tiveram condições para trabalhar como antigamente. Falo de alguns dos melhores realizadores a nível mundial: John Woo, Tsui Hark, Ringo Lam, Kirk Wong, Gordon Chan e mais alguns. Este cinema perdeu em qualidade e a sua supremacia no continente asiático foi derrubada pelo cinema coreano ou tailandês que têm tido grande vitalidade de há uns anos para cá, sem esquecer o cinema japonês, sempre presente.
Só alguns irredutíveis têm conseguido manter uma certa qualidade como por exemplo Johnny To (“The Mission”, “PTU”), Andrew Lau (“The Stormriders”, “A Man Called Hero”) ou ainda Stephen Chow (“From Beijing With Love”, "Shaolin Soccer") e foi em grande parte com “Infernal Affairs” que o cinema de Hong-Kong deu nas vistas novamente.
Com este filme, voltamos a um dos géneros que os realizadores locais dominam melhor: o filme policial com a eterna luta entre agentes da lei e as famosas “tríades” (máfia chinesa). Mas aqui não são os gunfights e a acção que são privilegiados, o que está aqui em foco são as personagens, os seus dilemas, isso tudo numa intriga com um suspense implacável.
 
Yan (Tony Leung Chiu Wai) é um polícia infiltrado no meio dos gangs há tantos anos que a sua vida tem sido um inferno. É apoiado pelo chefe da polícia Wong (Anthony Wong) que é o único a conhecer a sua verdadeira identidade. Ao mesmo tempo, Ming (Andy Lau) é um membro das tríades que está infiltrado nas forças policiais e trabalha para um dos maiores chefes de gangs chamado Sam (Eric Tsang). Na luta que vai opor o chefe Wong ao boss Sam, Yan e Ming vão ter de proteger as suas identidades e encontrar quem fornece informações ao lado inimigo.

“Infernal Affairs” é sem dúvida um dos melhores filmes do género dos últimos anos e isso deve-se sobretudo a um excelente argumento e aos actores, todos perfeitos. Como já referimos anteriormente, não se trata aqui de um filme de acção mas sim de um thriller privilegiando as personagens. O grande sucesso do filme é o retrato muito credível do quotidiano destes homens onde a mentira, a perda de valores, os dilemas morais, a fronteira entre o bem e mal cada vez mais ténue são a realidade do dia a dia. Tony Leung Chiu Wai no papel de polícia infiltrado é mais uma vez irrepreensível. Quem conhece o actor não se vai admirar com esta performance, já estamos habituados a tanta excelência mas aqui podíamos recear ter uma sensação de “déjà-vu” porque o papel de Leung é muito parecido com o papel que interpretou em “Hard Boiled” de John Woo. Todavia, o actor consegue evitar as parecenças e brinda-nos com uma interpretação ainda mais emocionante cheia de contenção e de naturalidade neste papel de homem perdido na mentira cuja verdadeira personalidade não pode existir sob pena de ser morto.
 
Por seu lado, Andy Lau, actor tão versátil como Tony Leung mas bem menos dotado, está aqui também excelente. Isto já pode ser mais surpreendente porque nem sempre Andy Lau nos habituou a boas interpretações e bons filmes mas aqui nada a dizer. O actor está muito credível no seu papel de vilão à procura de redenção e o seu confronto com Tony Leung é um dos grandes interesses do filme.
Outro confronto muito bem conseguido é o de Anthony Wong e Eric Tsang, respectivamente nos papéis de chefe da polícia e chefe da máfia. Anthony Wong é um habituado dos grandes papéis secundários e trabalhou com os melhores realizadores do arquipélago enquanto que Eric Tsang é se calhar menos conhecido do grande público mas também já fez imensos filmes. Os dois actores estão muito bem e cada aparição é memorável, sobretudo Anthony Wong, nomeadamente na sua relação mentor/protector com a personagem de Tony Leung.
 

 

 
O filme também nos reserva o seu lote de cenas cheias de tensão que pregam o espectador à cadeira. Porque no meio destas personagens com as quais nos identificamos de imediato, temos direito a uma verdadeira investigação policial ofegante e constantemente surpreendente. A cena de deal de droga com os tailandeses é um modelo do género e o constante jogo do gato e do rato entre os dois infiltrados transmite uma verdadeira tensão ao longo do filme todo.
Nesse aspecto, os realizadores Andrew Lau e Alan Mak souberam perfeitamente por em imagens um argumento muito bem escrito (também da autoria de Alan Mak). Dos dois realizadores, Andrew Lau é o mais conhecido, nomeadamente graças ao sucesso do seu filme “The Stormriders”, mas é surpreendente vê-lo à frente de um tal sucesso artístico. De facto, Lau é geralmente um realizador bastante comercial e pouco inspirado mas aqui nada disso. A parceria entre Mak e Lau traz-nos um filme muito bem realizado, nada espalhafatoso mas sim competente com planos muito arrojados e muito bem compostos. 
O trabalho sobre a luz e os seus reflexos está muito bem conseguido (ex: as várias cenas nos telhados) e reconhece-se aqui a influência do visual consultant do filme, Christopher Doyle, director da fotografia talentoso, habitué dos filmes do Wong Kar Wai e que trabalhou no lindíssimo "Herói" de Zhang Yimou. A montagem também demonstra grande perícia e participa na grande tensão que se sente ao longo das cenas do filme e aqui temos o bom trabalho de Danny Pang, co-realizador de "The Eye - Visão de Morte".
 

 
Único reparo que podíamos fazer ao filme seria eventualmente alguma fraqueza nos papéis femininos que são pouco desenvolvidos e servem sobretudo para destacar os papéis principais. Todavia, sabendo que existe um “Infernal Affairs II”, relatando o passado das personagens com os mesmos jovens actores que aparecem ao princípio do filme (digo-vos desde já que esta prequela está ao nível do primeiro filme) e um “Infernal Affairs III” que se passa pouco depois da história do primeiro filme, todas as histórias paralelas têm oportunidade de serem desenvolvidas no que agora aparece como uma verdadeira saga, o que demonstra toda a ambição do projecto.
 
Para acabar se eu vos disser que a Warner já comprou os direitos do filme para fazer um remake (perspectiva-se o Brad Pitt num dos dois papéis principais), de certeza que já não vos surpreende. Portanto, já sabem o que é que vos resta fazer: aproveitar que um filme destes estreia em Portugal para ir vê-lo ao cinema e por uma vez poder ver o filme original antes dos agora inevitáveis remakes de Hollywood.                    

31-01-2004

NOTA: 9/10